domingo, 27 de novembro de 2011

Leia na íntegra os poemas do áudio-livro de Carlos Moreira, "Em Silêncio Não Se Fala"

após cada poema, há um link para ouvi-lo
na voz do autor. caso queira realizar o download,
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"Em Silêncio Não Se Fala"
na íntegra, clique no link





balada de um deus embriagado



no princípio
era o berro
o caos do acaso
pedaço de nada nó de garganta guilhotinada

no precipício de tudo
estava o silêncio semente
de toda palavra
a palma aberta vazio
rindo distribuindo fogo
por todas as bocas

no particípio era a voz
a vez de ser
a fala oblíqua
fálica nada flácida

à fórceps
do querer atômico
das pedras que rolam da dança dos genes
o sorriso banguela dos sóis
plantados no escuro
vaga-luzes de brilho outro forma alguma


os deuses só nasceram depois
muito muito muito mais tarde
quando a sede aumentou a fome gritou na entranha a faca devorou a mão
quando a guerra precisou de senhores
os senhores de paz
e a paz (coitada
rezaram os pés de tudo que há)
cansou de ser palavra e mais nada


os deuses nasceram de todos os cantos

de todas as formas e nomes e dores alegres
vieram em cores
em carnes
asas pedras insetos imensos
cancros abortos invernos
madeiras ferros estrumes topázios ovos de todas as aves


cada um no seu mundo
ruminando infinitos

mas um deles
sem aviso
belo dia sem data
despertou
como se pulasse de um sonho em outro
gritou contra as portas que voaram desfeitas em luz
e chorou
diante do destino de estar eterno e não ser nada além
de além


contra que deus brandir o punho
se deus era ele e supremo porque para ser supremo
havia sido inventado?


havia lido
deuses gostam de livros
que o maior castigo era a eternidade
e nem pecado ele havia cometido
desejo nenhum erro nenhum morte nenhuma nenhuma carne
entre seus dentes sua carne


a eternidade lhe caía sobre os ombros
pedra infinita sem montanha


a tarefa de ser deus se limitava a legislar o tempo
mas alguma coisa lhe dizia
que há muito
o tempo
não mais

existia

!
revoltou-se

homem
cansado de ser deus
se fez mulher criança birra de maluco

pintou interrogações por dentro das nuvens
e fez chover


por trezentos tempos
os homens ficaram perguntando inquirindo debatendo

filos
o fando

e sua raiva não passou


então resolveu embriagar-se


e foi fazer de todas as maneiras sua maneira de estar assim

recolheu de todos continentes as canas todas de açúcar

as uvas
de todas as parreiras aprendeu o cauim o álcool de arroz

de batata de madeira de manga de goiaba de laranja de manjericão de amora

arginica cantárida cascas de ovos de ema de águia

chocolates corvos cornos de rinoceronte aspargos

ginseng mel de ostras sangria de estrelas champanhe de

ruínas morangos com laranja vinho verde amarelo

cor-de-fogo-quando-foge olhos de camaleão ponches

de todos os natais mortos açúcares cervejas venenos cevados

brancos tintos secos de mesa e cama


colheu todas as flores pra dar o tom certeiro
mastigou fermentou
bateu ferveu moeu acrescentou ao buquê
o azedume da cicuta
o amargo do curare

e o sangue de todos os tipos de gente

pra ferver no ponto certo o sol de ira do seu cálice

na borda imensa de sua taça
giravam sóis de girassóis
borbulhando galáxias em torno do vermelho vivo


bebeu


bebeu


bebeu

goles coagulados de gula

como se beber fosse só o que importasse e existisse


bebeu com tanto gosto tanta sede tanto trato
que nem se diria ser um deus que estava ali embriagado

quando jogou longe seu corpo vazio
estava repleto de nada
nem se lembrava mais

do que era tempo ser deus essa conversa

de infinito e orações mal-terminadas


estava livre
e livre
se apoiou sobre um quasar
e caminhou sobre seus pés


mudando no giro incerto do seu passo
a desordem do espaço órbitas formando novos pares
a vida escorrendo de sua boca


em gotas


de alegria e liberdade

resolveu inventar enquanto era tempo

(mas que tempo ainda se sustentaria?)
o corpo que lhe coubesse

a vida que lhe bastasse
em que sua carne reinventada
se misturasse ao sonho simples que arrastava

o ser inteiro e só
que sustentasse no colo e no olhar
sua leveza


desceu então
porque não era
de espaço vazio
e de negrume
que ia inventar de embriaguez seu amor


vermelha
rosácea
lâmina vulto esperma pétala folha-de-relva pérola luz apagada vento


foi tecendo de mar
de fruta
de pedra
os olhos
as mãos
a espera

girava gritava gargalhava
caía sorria mergulhava
e soprava entre as mãos
pra fazer da areia branca
a seda
da pele

fez dois pés de vento e plantou em cada um

dez

mil

caminhos

porque não queria amor roubado de si mesmo
e mesmo embriagado como só um deus pode poder

sabia ser amor o que era a liberdade

assim fez
e fez de nada o tudo desse sonho
cada poro pêlo umbigo boca cabelo sexo curvas de acento variado

montes de vênus veias nuas
grandes pequenos
lábios

colos de calor inesperado


e viu que era boa

porque não era perfeito

o amor em pedaços multiplicados ali a sua frente


faltava olhar e viço
fôlego que banhasse seu rosto


em vez de soprar
(chega de barro de vento)
beijou
a sombra de luz que havia inventado


beijo molhado de tudo que era e havia bebido
beijo incerto dado entre astros palavras na altura possível


beijo de deus e de homem
de filho e de pai
beijo de bicho

de homenino entre tardes
que se perderam da memória


enquanto beijava e criava
se sentiu criado e beijado

ele mesmo também inventado pelo ser que inventara


deus completo agora carne
no verbo dessa palavra

abriu os olhos nos olhos que lhe deram os seus

cruzou os dedos com as mãos que criou se criando
e viu no outro rosto o seu rosto diverso

não narciso de fôlego curto
nem lago de sede infinita

ele mesmo outro no espelho de sua fome seu nome dentro do

(silêncio)


amor do fundo à superfície


vestido de sol
e de água não disse seu nome nem nomeou

semelhança

ela que se quisesse se dissesse
livre agora como era
ou nome algum se rotulasse
que amar é ser sem nome

e estar reencontrado


na relva imensa do universo
as duas silhuetas sentaram
longamente olhando
o mar imóvel de tudo


adormeceram
em paz

no mundo
reinventado

deitados na areia do silêncio
assim vivos assim mortos

superestrelados


na paz da paz do amor
sonhado por um deus

embriagado



silêncio 1






ah que não sustento tanta fome e pensamento. eis que se desfazem formas loucas pelo ar. não que se permita a gravidade do momento. só o que é desejo pode ser e não estar. quase que se perde o que foi no firmamento. quase não se sabe quanto o tempo vai durar. quase se desmonta essa máquina do tempo. sempre no meu sempre nunca mais jamais ne pás. eu que não sonhava sou o sonho a dor o medo. eu que nem sabia só eu sei o que lembrar. acordei cansado de estar morto apodrecendo. eu me ressuscito e desafio o meu cantar. sou multiplicado pelo quanta do meu peso. a minha matéria é doutora em levitar.



silêncio 2








lembra amor daquela tarde daquele verão daquele sorvete daquele girassol daquele catavento daquele gato angorá na tampa da lata de biscoitos daquele uivo certeiro daquele amor no sal do mar daquele fogo de fim de tarde daquele beijo de cabeça pra baixo daquela pedra daquela lua daquele filme daquela música daquele frio no alto da ladeira daquele gosto de suor e cidra daquela vertigem daquelas crianças envelhecendo depressa daquele jeito de olhar entre as grades do portão daquela vida amor lembra amor lembra amor lembra?




silêncio 3









como se
tivesse garras
abro os gomos
da pedra

pra que a luz
de sua carne
escorra em liberdade

e ilumine
a treva




silêncio 4




pêssegos. morangos. fios de mel no pão aberto.
maçãs ao sol em desafio. creme de limão. cerejas.
mancha de amora na camisa branca. crua.
estrelas estalando contra a língua, taça longa.
mão de uvas, mangas, nódoa de tudo. caju. açaí.
aspargos com açúcar. gengibre com açúcar.
pimenta curtida no mel, flores cristalizadas.
aguardente sobre a carne, olhos de alcaçuz.
grãos de milho num rosário de cevada, fresca.
mamilos de mamão com espírito de vinho.
nada de faminto, triste, reticente.
todos os sentidos no caminho.




silêncio 5





Os olhos não cabem no corpo.
Os olhos não sabem do resto do corpo.
Os olhos no corpo são outro corpo.
Os olhos dos mortos não têm mais corpo.
Os olhos dos vivos têm outro corpo.
Os olhos refazem o caminho do corpo.
Os olhos inventam a vida do corpo.
Os olhos terminam a história do corpo.
Os olhos se abrem primeiro no corpo.
Os olhos se fecham depois do corpo.
Os olhos podem abrir mão do corpo.
Os olhos são o corpo do corpo.
O corpo não.




silêncio 6





porque mergulhei no inferno
e vi girassóis queimando
me fiz de vento e moinho
mefisto morto no mar
de noite negra de espanto
e quis sem querer a morte
mil vezes na pele entrando
é que acendi este canto
feito da treva da luz




silêncio 7





no caminho enforcado
debaixo daquela sombra
pelo tempo mastigado
feito livro em língua morta
ele esperava em silêncio

o seu relógio parado
com todo rigor cumpria
o ritual invisível
de estar vivo sozinho
duas vezes por dia




silêncio 8




o que tem na tua pele
que deságua minha sede
se na rede caio peixe
desse mar que me persegue
se me calo em tua boca
pra falar a língua santa
do amor que se desata
tempestade fogo planta
eu não sei o que me pesa
nessa asa de repente
ser o caçador e a presa
sempre o mesmo diferente
sem você eu não sou quase
o que eu era logo esquece
planta fogo tempestade
o que tem na tua pele?




silêncio 9




o amor e seus elementos
dissolveram o firmamento
como se fosse papel

agora chove aqui dentro
tudo está fora de tempo
e você nem percebeu

que o mar está mais calmo
que o breu da noite é claro
e a tarde amanheceu

tudo é normal e raro
não há certo nem errado
quando há você e eu

o rio retorna pra fonte
o segredo não se esconde
no silêncio que se ouviu

o perto volta de longe
a flor de novo se expande
girassol no mês de abril

quando o mar está mais claro
quando o breu da noite é calmo
a manhã entardeceu

tudo é milagre fácil
nada é breve nada é frágil
porque há você e eu





silêncio 10







dormi com tua sombra
luminosa no meu peito

amor: ela ronca





silêncio 11




não vou ficar sonhando por você mas não vou deixar de sonhar com você a não ser que você decida sonhar sozinha

sei que você é comum mas o comum que é seu é diferente do comum comum dos outros como um raio de sol ricocheteando no olho de um beija-flor pousa diferente de um raio de sol qualquer entre as pétalas safadas de uma violeta

se você quer ser ninguém eu te ajudo mas esse ninguém que você será terá de ser um ninguém visível pleno vivo de tanta possibilidade inútil

eu sei que os outros que se danem por isso mesmo estamos livres para sermos o máximo não em relação a eles mas em relação ao que eles poderiam ser se fossem nós e se mandassem à merda

eu te amo e você sabe disso e sabe o que representa ser amado por alguém que queimou sua alma
como lenha da palavra e que agora só tem cinza pra oferecer ao mundo mas que basta soprar com jeito por baixo dessa cinza e fiat lux
de novo

porque ser menos do que os outros se é possível ser mais do que você?

eu sou ninguém e esse poder inútil me dá ganas de big bang se eu pudesse punha o sol na ponta de uma tocha e entrava correndo na caverna cegando todos de poesia e se meu braço se queimasse e meu rosto derretesse enfim máscara de cera quem sabe minha face se soltasse de mim
e voasse alta na tua direção?




silêncio 12




eu pressinto as pernas de mona lisa
imagino seu contorno em branco e preto
o tecido contornando o tornozelo
a panturrilha pálida os pequenos pêlos
irisados pelo vento que a tela encobre
um pequeno vermelho na coxa esquerda
fruto de um amor ou de um inseto
o sensível quase nada desencontro
entre o tamanho de uma perna e outra
ela é coxa de nascença e renascença
mas de tal modo tão sutil a diferença
que se reflete no sorriso um pouco acima
e no arco matemático dos olhos
a tortura do conjunto na vertigem de existir
assim equilibrada em superfície
sobre uma base de iceberg derretido
não são tristes obscuras suas pernas
são incertas em silêncio pois o tempo
não precisa delas para nada
mesmo estando ali parada a tantas horas
não guarda mais vontade de ir embora
de vez em quando coça o braço
não de enfado nem de medo
mas de lento forte agudo desespero
de estar assim dependurada
no vazio do mundo afora
em casebres funerárias bares louvres
em pobres salas coloridas sem louvores
com seus pés invisíveis e profundos
balançando neste vácuo além-moldura





silêncio 13






o céu
da minha boca
é a tua





silêncio 14







é sem fundo esse poço
chamado passado
tem fama de fosso
charco cloaca alagado
mas é feito de escuro
e de limo sublimado
não há unha de garra
na parede incrustada
rastro de mão digital
boca de fera enjaulada
marca de pé ou cordame
na parede passada
é sem pausa esse fosso
e vamos todos caindo
mares estrelas mulheres
quadros montanhas meninos
porque voar não sabemos

cair é nosso destino



silêncio 15





metáforas me atacam
na embriaguez do escuro
balanço numa rede de estrelas
sou feito de medo vertigem amor
caminho por becos que invento
onde nem minha sombra me acompanha
estou estendido no vazio
esperando que o tempo me seque
que a luz do teu olhar me cegue
e eu possa mergulhar em paz
no lugar em que estão as coisas
antes de nascerem

sinto mesmo sem linguagem viva
o pulsar de cada partícula
o movimento circular de cada coisa
dentro e fora de mim
porque não há dentro e fora
e não sou ponte de lugar a lugar algum
eu sou tudo o que me toca
e estou em tudo o que jamais verei
sorrio pra lua como sorriram e sorrirão
todos os loucos com tempo suficiente
no meio da estrada e do escuro
para perceber o giro de tudo
a espiral sem centro que desabrocha
numa galáxia nunca sonhada e vem girar
suavemente no meu copo dágua

verdade que estou entre livros
e datas que me perseguem
mas se fizesse minha fogueira
de poetas e calendários
iluminaria a mesma porção de passos
que preciso para estar parado
carregando o vazio do meu corpo
de um lado a outro do palco
mesmo sabendo o ridículo da peça
porque incomoda aos outros atores
o cinismo e a liberdade dos que se encontram
a uma ponta do palco e de mãos nos bolsos
esperam o descer do pano

mas se resisto à vontade eterna e certa
de gargalhar na minha sombra
é porque num momento breve e mágico
o movimento da comédia te aproxima do meu braço
e te envolvo no escuro como se a morte
me emprestasse seu manto
e acendemos lá dentro
no mais profundo centro do oco fundo do poço
a vida
que brilha dentro da morte fingida
escondida do mundo como o sol
atrás da breve asa leve
que passa sem levar nada
(mas que deixa no pássaro
sua marca)





silêncio 16





cabelo
unha
dente

amor
humor
apêndice

memória
prata
vinho

tudo
foi ficando
no caminho





silêncio 17





você passou de repente
chuva de verão
foto colada no espelho
gente na estação

são teus olhos que vejo
quando abre o sinal
você me acena em negrito
num branco jornal

na próxima esquina
há de nascer o sol
mas se você não for
eu também não sou

não venha me dizer
que a tarde já vem
ainda é cedo pra ser

no amor
pensar não pega bem




silêncio 18







minha sombra projeta meu corpo
vivo e morto num porre sem vinho
eu mesmo adivinho o caminho
e arranco a âncora do porto

fantasma da ópera corcunda
monstro gauche e sem coração
desenho minha triste figura
no espaço entre o sim e o não

quebrei minha máquina lírica
minha elétrica lira calada
desafina à beira do abismo
antes mesmo de ser inventada

eu mergulho entre isso e aquilo
e arranco o fio da palavra




silêncio 19





deu

no

que

deus





silêncio 20







riobaldo tatarana urutu-branco
repousa no teu conto meu espanto
de ver em tanto canto tal silêncio
em tua diversa voz o mesmo guizo
de anjo ou de demônio feminino
mefisto cravejado no teu peito
ou caixa dissonante de pandora
agora no teu braço feito em arma
pra armar o que te ama e te derrota
desfaz o teu destino falso e roto
que não nasceu pra ulisses outro ente
retorna à encruzilhada e de repente
abraça o teu demônio feito em anjo
de agora em diadorim eternamente




silêncio 21









combati com o anjo
e a benção não veio

naveguei os mares
para não chegar
enfrentei o sol
nada me esperava
fiz o meu sermão
dei o meu silêncio
maltratei esfinges
fui até ao inferno
inventei gigantes
escutei sereias
expulsei os bárbaros
traduzi os sonhos
fiz doze tarefas
antes de seis dias
reduzi a quase
a relatividade
mergulhei no espelho
para me enfrentar

mas a benção não veio




silêncio 22





desculpa amor

roubaram a flor
que eu plantei
na tua cova

era vermelha
e nova





silêncio 23






eu sou um só
mas não sou
só um

somos muitos sós
em lugar
nenhum

e de tanto ser
sem sentido
algum

desfazemos nós
dilatamos zoons
acendemos sóis

pra de uns
ser
um





silêncio 24






sou um homem limpo

uso meu nome
para escovar
os dentes

trago no peito
uma serpente
mordendo
a própria cauda

mas é marca na pele
e travo de veneno
nos meus olhos
não se pressente

apesar de crápula
mentiroso e libertino
sou inocente



silêncio 25








tenho procurado a terra do sono
dentro de livros cavernas mulheres
qualquer porção de paz antes do túmulo
sem o peso do corpo e outros vermes

sem a cor do desejo e do deserto
ou o falso equilíbrio do calmante
sono sem sonho sereno e desperto
somente em si mesmo: reconfortante

mas a maldita lucidez que trago
alucinada fera nesse escuro
não me deixa dormir nem um segundo

estranho sol de sombra vulto claro
caminho sem destino em falso prumo
buscando acordado a terra do sono



silêncio 26






se

você

faltasse

mais

não

caberia




silêncio 27








5 ou 13 coisas pra que serve o meu amor


meu amor serve para encurtar a distância entre as estrelas e de algum modo muito obscuro que só meu amor reconhece fazer a noite mais longa e absurdamente iluminada

meu amor permite com a sua existência a abertura de todos os girassóis e todas as infinitas sementes que alimentam infinitos pássaros que de outro modo senão pelo meu amor não poderiam comer e por isso mesmo passarar

meu amor conserva virgens todas as palavras mesmo as mais aparentemente velhas e cansadas encontram no meu amor o mar da juventude e vêm todas sedentas de serem ditas gozadas comprimidas em poemas libertadas

meu amor ressuscita a música abre a tumba o calabouço destapa a boca de mármore falso e deixa que o som bata suas asas e derrame o seu pólen sobre as pedras que inesperadamente começam a cantar

meu amor substitui todos os remédios tratamentos diagnósticos não há câncer gripe mau-olhado que não cure o meu amor com eficácia comprovada como relaxante e afrodisíaco

meu amor transforma a cor de tudo ou transforma a cor de tudo aqui no meu olhar a tal ponto que brota do semáforo um azul de tempestade e ontem fez surgir de olhos cegos dezenove arco-íris

meu amor derruba muralhas e milhares de mulheres por ela se libertam a leveza de seu passo raio tsunami arranca aplausos das nuvens que derramam sobre os reinos libertados o mesmo perfume cor de vinho

meu amor inventa línguas para as coisas para as plantas ela deu um idioma que ela chama greeniano e agora é possível haver diálogo entre um grilo e uma rocha interrompido por uma anta poliglota

meu amor consola a perfeição por não ser eterna a poesia por não ser perfeita e a morte por ser imortal e de dentro de seus olhos mina um rio de lágrimas de cristal que deságua lentamente para que tudo em volta transborde

meu amor me aniquila o tempo todo me nasce outro lá de dentro do seu lodo lótus luz acesa na janela lá de casa meu amor é minha queda meu sol e minha asa eu sou de cera entre os dedos de seu sonho me decifro nas entrelinhas do silêncio de tal modo reencontrado que eu morro no princípio e começo onde termina o ponto fraco do meu plano: meu amor é o que eu amo




silêncio 28






sou súbito
o que a sombra é

se me desfazem verbos
eis a luz

sigo só - e cego
mais que um: sou uns





silêncio 29







sabe
quem anda me comendo?
o tempo






silêncio 30




outro ontem
incompleto
cai do calendário

tempo sem tempo
sempre fora do horário

se sou o pulso
a corda a fera
dentro do abismo

por que não cessa
agora
o mecanismo?


silêncio 31





de cristais e silêncios essa falta
foi a fera na mesma estrada antiga
não me veio ninguém da esfera alta
luz nenhuma que em outro espaço brilha

não se fez menos dor no meu caminho
nenhuma pedra a mais no meu passado
só o dia perdeu muito do brilho
e a noite rompeu o breu contrato

não maldigo um tal dia tão maldito
por saber que a vida é fúria e calma
e descrer que o que digo sem juízo

tem mais fogo e força que essa alma
miserável faminta e arrebentada
no centro do vazio da antiga estrada


silêncio 32






bicho do mato
de sete cabeças
de sete faces
sete vidas
vezes mortes
sete artes
meu maior disfarce
é ser eu mesmo

se me finjo
de esfinge
sou o que és
o que se parte
na miragem
do espelho
(onde arde o ouro
da memória)

me decifra-te
ou te devoro-me



silêncio 33






me dá teu senso
o teu sentido

porque o meu
perdeu-se no caminho

não é de ti
que preciso

fica tranqüila

é do que nasce em mim
quando estou contigo
que careço

amar
é isso





silêncio 34





a carne é fraca me disseram mas eu vi
o corpo luminoso de um homem entre rodas
lubrificando a engrenagem

o labirinto de peixes e crustáceos
na garganta do afogado
o pó cinza que ascendia e o cheiro de gordura
nos umbrais do crematório

por isso não me falem de fraqueza
as pedras são fracas e a chuva sem vento
quando a tarde não termina e as pontes sem destino
que desabam sobre os rios

a carne não é fraca a carne é qualquer coisa
entre sonho e podre vinho e mangue
e se desfaz em fios de nada ao menor toque de navalha
ou de pavor
a carne é casa aberta cidade sem muralhas
triste morada sem senhor






silêncio 35





fomos muito longe
sem sair do lugar

agora
para onde ir?

agora
como voltar?





silêncio 36






tão carente
de conversa
que até um velho
surdo
me conserva
a lucidez

falo comigo
pra ele
fala de si
consigo

e vamos os dois
tateando silêncios
e signos

como velhos amigos




silêncio 37








hoje fiz
respiração
boca a boca
numa borboleta
(sem metáforas)

soprei de leve
até que abriu
suas asas
e decolou
direto
para o sol

(sem metáforas)


silêncio 38




estou morto
quem diria
de tanta vida
que me cabe

morto de morte nascida
assim azul e de repente
bem no meio da tarde

morrer assim
não cria luto
não faz manchete
de jornal

morrer assim
em plena vida
de tanta vida

já é normal





silêncio 39



os pronomes pessoais só desagradam
a quem pensa ser a imagem do espelho
e pensando se perde na miragem
mirando o sonho acerta o pesadelo

de estar na tela na página no ar
cada gesto xamânico perdido
como se fosse fácil ocultar
tanto inferno em tão pouco paraíso

quem entra na caverna da linguagem
deixa lá fora a esperança de ser um
multiplicando em si o mundo inteiro

espelho circular oitava margem
manaus egito lua cafarnaum
dentro do instante último e primeiro



silêncio 40








pau & circo


não há
quem não
pense

pênis
et
circensis



silêncio 41







meta


a palavra cantada só germina
se o ouvido tiver a alma fina
flor-poema cadê o teu perfume
homem brasa rebrilha o teu lume
pra nascer desse caos o universo
só espera que digam o seu nome

o que diz e dirá nesse meu verso
a beleza virada pelo avesso
a cabeça da deusa decepada
transformando em pedra essa palavra
retirada de dentro do silêncio
fez de si essa música parada

nesse arco tão teso quanto tenso
miro a imagem exata do que penso
um caminho um relógio um sapato
um amor pra morrer no quinto ato
o passado guardado no futuro
o presente perdido no retrato

esclareço num raio esse escuro
verborrama espalhado no teu muro
se a linguagem não faz o seu sentido
se o sentido parece não ter signo
reescrevo Aristóteles Quixote
Dante Fausto Drummond Tomás de Aquino

poesia palavra carregada
labirinto esfinge coisa rara
só por ti enlouquece meu juízo
teu inferno é só meu paraíso
se me perco na altura da tua asa
tu mergulhas de vez dentro do círculo




silêncio 42






o Senhor é meu pastor
não me faltará capim
ainda que eu caminhe
pelo vale do silício
seja de silêncio minha fala
e me retalhe o falo e a alma
faz-me repasto de vermes
guia-me para dentro da tempestade
minha dor é seu consolo
unge minha cabeça com fogo
para que a treva se reconheça
e o cálice da ira se aqueça
o Senhor habitará na minha casca
por toda a eternidade
nada O fartará



silêncio 43








por que tanto vento
dentro da casa? por que
um deserto assim tão dentro
da casca como se tudo fosse
e se partisse indo sumindo enquanto
deixasse de ser? então pra que
tanta força tanta pedra contra a corrente
se o rio nasceu para secar e ser rio
e sereia até o silêncio começar?
onde o corpo na sombra
a palavra na lembrança a prata
de uma tarde que nunca termina?

porque antes do começo
já havia o nada
e dentro do dia das horas dos seres das coisas
a secreta semente do nada
tecendo seu humilde trabalho





silêncio 44






a pessoa



sobra sombra
entre o que sou
e o que sinto

o que é meu
não me pertence

só é verdade
aquilo que minto

multiplico minha imagem
pondo espelho contra espelho

sou meu próprio
labirinto

e duvido de tudo
que vejo




silêncio 45






eu sei como orfeu se sente

entre pedras seu olhar de breu e sombra
a luz sonhada a sua frente
e a tristeza que se torna gravidade

não é leve carregar as mãos vazias
a quem apontam estradas
que vão dar em nada sem sementes

dentro da noite e do dia
mesmo sem querer
eu sei como orfeu se sente




silêncio 46







a morte já está comigo
me acompanha levemente
como quem seguisse o vento
e não quisesse compromisso

mas não perde o meu caminho
se atravesso a meia-ponte
ou dobro a esquina sem aviso
sua sombra logo pousa sobre a minha

é companheira competente
e suponho até que cega: quem sabe
pelo faro é que me (nos) segue
porque vivos também cheiram

às vezes roça os dedos bem de breve
na minha mão aberta e nua
ou na nuca feito a mãe guiando o filho
entre as mil margens da rua

a morte está comigo desde sempre
e quem sabe de repente me esquecendo
eu tropeço em alguma pedra amiga
e a morte siga sem dar conta
de que primeira vez na vida
caminha sem mim só em si sozinha




silêncio 47







durante toda a minha vida
(mas o que é toda a vida
se nenhuma vida é toda ou tudo?)
eu escondi meu ser cansado e louco
atrás das palavras

desde cedo desde muito cedo aprendi
a ler escrever e ver que tudo aquilo
era também uma forma de mentira de teatro
e que assim eu me eximia me esquivava
de ser eu a verdade de mim mesmo

agora no limiar da porta
(do lado de fora está escrito FECHADO
em letras vermelhas)
decido ser eu mesmo e por acaso me descubro
tão pobre de palavras e adereços
que as metáforas escapam
pelos furos dos meus sapatos
e as antíteses que criei com todo amor
como a um circo de pulgas
saltam da mesa cansadas do cabo de guerra
e da minha própria bebedeira

se as palavras tivessem cu eu meteria em cada um
o dedo sujo e duro do meu silêncio
(apesar de tudo ainda escrevo escravo escroto
esgoto de mim mesmo e desse mundo torto
que me devora como um espelho)




silêncio 48







misericórdia, amor, por ser tão podre
por ser tão pobre a aliança que proponho
de limo lama lágrima e memória
meus seios estão murchos
minhas coxas se fecharam
mas as comportas dos meus olhos
ainda estão abertas

aproveita e te afoga, amor
feito ofélia feito ismália
narciso joão gostoso
e duvido se teu corpo não se casa
de uma vez
com a tristeza branca e magra
que inventei pra te vestir

aproveita, amor
e vai embora
pra dentro de mim




silêncio 49






defina amor

e a pedra disse
vento

e o vento disse
silêncio

e o silêncio
dormiu

lá dentro

do coração
da pedra



silêncio 50







espírito
de porco
espinho

abraço o ar
com o aço
que me escorre
pelos poros

e asfalto
com o olhar
o meu caminho




silêncio 51







primeira lição: não
existe regra que não seja
sua própria exceção

(a não ser que se decida
ser o não do não
o sim do não
pelo avesso: senão)

segunda regra: se a vida
for azul e linda
houve erro de formatação

(ou de memória
essa ilha de fantasia
da edição)

última regra: a entrega
deve ser no prazo
e completa
sem chance de prorrogação

(a não ser que o ser se dissolva
entre o tédio do éter
e o limo da sublimação)




silêncio 52







ela gozava treze vezes
em trezentas camas quentes

ela falava nomes feios
e ficava arrepiada
em francês italiano esperanto

seu corpo era um porto de partida
de navios imensos que afundavam
sem deixar vestígios

eu nadava a braços largos
no seu ventre entre pêlos de peliça
entre sombras e vermelhos
que brotavam feito nuvens
do seu corpo iluminado

um dia (ou era noite? fim de tarde?)
ela foi embora devagar
acenando vinte mãos pálidas
e chorando por todos os poros

em um dos infinitos dedos
balançava balançava
a chave de sua caixa
de pandora





silêncio 53







só há dois tipos
de poetas

aqueles que dizem
sim
e aqueles que dizem
não

os que dizem talvez
não são poetas

são burocratas
professores de estética
cronistas frustrados
ou covardes prostitutas




silêncio 54







às vezes no meio da tarde
o vazio me tira para dançar
(mentira: eu que assovio
quando vejo o vazio passar)

ele vem com o vento
que a chuva manda na frente
pra fechar as janelas
e os olhos da gente

ou pode ser o não-vento
o demo do tempo passando
no meio do redemoinho
que muda tudo de canto

às vezes a música pára

e a gente sente que a vida
já estava de partida
antes da festa começada




silêncio 55






você
era de vidro
e sopro

eu
bruta pedra
primitiva

fomos feitos
pelo avesso
um pro outro

eu, a morte
você: vida




silêncio 56






o tempo se fecha entre meus dedos
fruta podre na esperança de semente
não pára de chover há sete anos
faz sete que morri e permaneço

estou no porto que afundou e não há vento
nem mensagens que me saltem pelo ar
todo o meu olhar é cor de lama
e esqueci meu nome há muito tempo

mas dizem que haverá futuro
para as pedras que ficarem em silêncio
escondidas bem no fundo do escuro
dessa nuvem que não sabe caminhar

trago entre os dedos o passado
em gomos sumos e sementes
e vou seguindo porque em cada passo
há o risco de estar: mesmo que ausente



silêncio 57





sidarta
meu tudo enchendo
meu nada



silêncio 58





olha os olhos
olha os olhos
olha os olhos
da menina
envergonham a manhã
com o seu azul

não há medo
não há míssel
que derrube o sol
do céu

vem acorda
vem agora
já é hora de saber
que o mundo não foi feito na tv
o agora está lá fora
bêbado de acontecer

manhã cedo brilha a rosa
manhã cedo brilha a rosa
na saliva do jardim




silêncio 59







eu não recuso
olhar o sol de frente

daí minha cegueira
essa loucura que me sobe
pelos verbos
e se abre na cabeça
feito um lótus

esse quebrar de pedras
na certeza de um mar
que mora dentro
e se afoga na pequena treva
de uma palavra acesa

apesar de negra
na miragem
do papel




silêncio 60








eu fiz um acordo
com o silêncio

há muito tempo
não me lembro
exatamente das palavras
ou dos gestos ou os símbolos
usados nesse pacto
sem nome

não foi preciso encruzilhada
sangue sêmen testemunha
nada da parafernália
que se obriga a estar presente
a um acordo de palavras

foi acordo sem palavras
mas estavam todas cientes
da minha humilde prepotência
de usá-las sem medida
sem cuidado
na perícia que a demência
dá a poucos
kamikases quase mortos
cirurgiões do próprio cérebro
no mergulho azul profundo
entre nada e coisa alguma

fiz um pacto com o silêncio
um tratado de mim mesmo
pra ser lido no escuro
do aconchego
de um túmulo




silêncio 61






um senhor escuro
pousado bem de leve
no espelho
observa

aonde leva
essa vereda?
a que deserto
me condena
essa palavra?

em que camada dessa pele
retalhada pelo tempo
mora teu segredo
alma?

eis que do escuro
de repente a luz
a queda
e o nada





silêncio 62






o coração precisa ser inteligente
pensar o cérebro de um modo diferente
fazer do corpo nuvem e pedra de repente
fingir que sente tanta coisa separada
poesia alma danada ninguém vai te exorcizar
caminha cega com os olhos na viola
com o dedo na vitrola do meu cérebro a piscar
caminha louca gargalhante esfarrapada
noves fora a vida é nada
morte me ensina a contar

pulei o muro do quintal do paraíso
meu deus do céu mas então o céu é isso
melhor não ter nem um pouco de juízo
para não ver tanto anjo em debandada
dando as costas pra coitada
dessa virgem a soluçar

não chore não minha mãe não chore não
que vou lhe dar um pedaço de pulmão
parte do fígado a língua quase inteira
o brinquedo de mijar cada dedo dessa mão
me dou inteiro se a senhora prometer
preparar para o seu filho novo em folha coração
que só precisa ser um pouco inteligente
fingir que pensa como o resto dessa gente




silêncio 63






singro signos
sorvo pântanos
sangro sândalos




silêncio 64






eu sou você
só você não sabia
e não sabia
por que não queria
porque querer
era muito
e você me dizia
que não podia
que não podia
com tanta poesia
e ia embora
e era eu quem partia
mas eu sabia
mais dia menos dia
nossa noite brilharia
porque eu era você
e quem disse
que de si
escaparia?




silêncio 65







aquela sopa esfriava
enquanto a mosca zumbia
o relógio marcava
meia-noite meio dia
sono preguiça calor
nenhuma dor distraía
a folha não balançava
a sombra não se movia
nenhum amor pra esperar
a noite de outro dia
nem a saudade pintava
a sua fotografia

silêncio no corredor
toda a cidade dormia
a tela em tecnicolor
sua memória vazia
nem percebeu que estava
emparedado em si mesmo
o nó da sua garganta
sendo apertado em silêncio
mal percebeu era tarde
para escapar do remédio
o tempo de hora em hora
e um comprimido de tédio





silêncio 66





perdi a dentadura entre o verde do quintal
agora meu sorriso é tão vegetal
quando falo gafanhotos saltam
sobre sapos de cerâmica e creme dental

o céu da boca é tão azulejo
saliva lodo verde monet
formigas cavam dentro do beijo
que eu mandei pra você

a língua virou poleiro
os olhos chafariz
é preciso podar grama
todo mês no meu nariz

não tenho nada contra o nada
mas não sei me dissipar
o difícil de morrer
é não poder matar o tempo





silêncio 67






se você perguntar de onde eu vim
posso lhe responder sem medo
eu vim do começo até este fim
eu fiz do caminho meu credo

posso ser o que quiser
desde que seja de repente
homem menino ou mulher
napoleão major tenente

sou um negro da cornualha
marciano de barbalha
sou no xingu maior pajé
sou o que deus e o diabo quer

fui me mudando porque quero
ser sempre o mesmo é desespero
fui me fazendo pelos ares
troquei raízes por radares




silêncio 68






shamallian



as pedras chamaram meu nome
e eu respondeu.
ou via folhas em silêncio.
deitei meu corpo na relva
quando havia frio
quando estava quente
e aprendi com meu corpo
que é bom estar vivo
mas morrer não é mau.
como a chuva demorasse mais um pouco
e o sono colasse nos ossos olhos
dedos leves cinzentos
e o corpo em si mesmo
para dentro do nada.
aprendi com as coisas
ser não ser
rir de mim esmo
quando um rosto na água
sorria pra mim.
foram todos embora
com o tempo
mas o tempo ficou eu também
agora escrevo nas pedras
na faca das folhas
para ninguém.
quando acordei persubi o silêncio
do lado de fora
mas não sabia
se todos deviam permanecer
em torno do jogo do fogo
e nossos loucos deveriam cantar
em nossas bocas
suas palavras de fogo e mel
arrastar nossa língua pelos ares
musas músicas gargralhadas
meninos tornados deuses
pelo batismo da alegria
afastar de nossas portas as hordas
as feras das trevas sangrentas
a fome dentro de nós
porque palavra e canto
e cores na pele de bronze
eram ser nossas certezas
a graça dos nossos dias
os dias das nossas noites.
mas acordei e era tarde
todos dormiam
ainda de pé
caladas suas bocas ficavam
apesar do olhar de tanto desejo.
onde malucos de nuvens
onde trombetas de flores
e fartura de sonhos?
a fome bastante
a tristeza maior
pousavam em nossas casas
colavam os nossos lábios
os ossos dos nossos dedos
e caminhavam nosso caminho.
canto em canto algum se ouvia
e nunca tão preciso.
por isso apesar do medo
da falta de certeza
no arco da palavra
pousei meu pé sobre o centro
alucinado do mundo
e disse meu nome
como se soubesse sonhar.
ninguém me ouvia
ou eu é que não falava
mais língua de alguém.
foi nessa hora que as pedras
chamaram meu nome
e eu respondeu.




silêncio 69






que fique muito
mal explicado

não faço força
para ser entendido

quem faz sentido
é soldado




silêncio 70






tudo o que é sólido
se dissolve no ar
tudo o que é pálido
vira gato na treva
tudo o que é lógico
é bom se duvidar
tudo o que é lícito
só acerta se erra
tudo o que é mágico
tem segredo e cartola
tudo o que é pêndulo
tem um ponto que pára
tudo o que é símbolo
satisfaz ao silêncio
tudo o que é cérebro
pensa tudo que é penso
tudo que é tudo e nada

tudo o que é endêmico
pega a pele por fora
tudo o que é pássaro
sabe a curva do vento
tudo o que é clássico
saca antes da hora
tudo o que é rápido
perde do pensamento
tudo o que é máquina
teme a cara do tempo
tudo o que lúcido
um dia sai na pancada
tudo o que é básico
sente a falta do todo
tudo o que é efêmero
chega a tudo o que nada
tudo que é tudo e nada





silêncio 71





mar
dessa vez eu venci
essa dura peleja
de naufragar
enquanto se veleja

veja bem mar
eu também sou água
por isso mais dura a parada
entre teu sal e o meu

teu dia chegará mar
e nessa noite
quando eu enfim afundar
aí sim
você pode cantar

vitória




silêncio 72






o tempo
grave
neste grito
mudo

minhas mãos
em greve
meu olhar
e tudo

que não
posso ver
(o silêncio
ao lado)

nada
por fora:
por dentro:
nado





silêncio 73






os carros passam por mim
eu vou de preto pela rua clara
a surpresa me espera na esquina
com cinco pedras sujas na mão

eu digo não: já me basta a ausência
do que me sou entre pele e miragem
qual o meu nome perguntam
eu respondo Amanhã

garotas com alma de poodle
sorriem dentro de caveiras milimétricas
eu não: mastigo pedras de sentido
e cuspo com o canudo do poema
no ouvido de quem passa

há quem me chame de dionísio
mas isso, acreditem
não tem graça




silêncio 74






vincent



ouço a sinfonia fantástica de Berlioz
enquanto caminho sob a chuva,
sobre a lama. sonhei esta noite novamente
com girassóis. os olhos ainda ardem de
lembrar como se a memória das cores
tivesse fogo próprio. um vento soprava sempre
e leve, no sonho, apontando o sentido que deveria
tomar naquela fuga. mas até no mundo onírico
de Morfeu a idéia já me cansara, eu
há trezentas vidas fugindo fingindo partindo
a moldura de mundos recém-descobertos, alguns
mesmo inventados, mundos que de mim se
faziam cúmplices. mas de novo os girassóis
com suas faces voltadas contra a luz e o vento
lento a soprar nos moinhos do destino.
a inevitável queda das mãos diante do nada, o dar
de ombros sem que do escuro do infinito
nenhuma voz o convencesse do contrário.
esse automorrer-se, suplício vácuo de quem
se extermina por nada tudo querer. talvez aqui
a razão do estar andando, o motivo do vir à chuva,
pisando sendo lama, sem marcas no chão,
daqui a pouco. mas por que as notas do sonho
de Berlioz, por que esse estacar do fôlego
para melhor ouvir o gramofone que há no crânio
a agulhar neurônios, fibras e sangues?
o que aqui reproduz com perfeição
a música de Berlim?
lembro ter trocado um quadro por uma entrada,
lembro da ruiva raivosa no intervalo, estalando
no busto semi-aberto seu leque negro, como arfava. lembro
que ouvia as cores e que as cores iam
de um ponto a outro do ser, partilhando pontilhando espaço e tempo,
dançando sob o compasso da imortalidade. lembro muito mais.
mas qual.
hoje se me restasse um quadro o trocaria
por um guarda-chuva ou por um prato quente.
minha obra-prima por uma cama.
já não consigo nem sei gritar. se o pudesse
gritaria baixo as notas submersas
que emergiram daquela noite em mim, em Berlim.
o meu timbre no fundo dos bolsos encharcados,
escondido entre as dobras de meus dedos
enrugados e brancos como o dorso de um jovem
rato morto. pouco.
a. pouco. a sinfonia cessa,
tão mais curta que o caminho, tão mais certa
que os passos. o silêncio azul e fresco.
a noite marrom não expirou ainda
sob o toque da quinta estrela.




silêncio 75













as lesmas
são sempre
as mesmas




silêncio 76






sou o de dentro
da ostra
quando a pérola
partiu

a quarta face
da trindade
que você não viu

o que pesa
por baixo da pedra

o que queima
por trás do pavio

dentro de mim
nada espaço

pedra ou passo
espero vazio





silêncio 77






eu sou a brasa
a ovelha negra e bastarda
mas não falha
meu gatilho peregrino

minha arte afiada
minha capacidade de estar
sempre na estrada

sou eu quem canta para os anjos
gozarem nas nuvens de deus
eu que seguro meu crânio
e ilumino a escada do céu

sou eu quem sabe daquilo
onde cabe o tudo e o nada

por isso eu sou a brasa
a ovelha negra e bastarda




silêncio 78






quando bater à porta
para ver se me encontro
ou se me perco
não esqueça de bater de leve
para que a musa
se esconda sem susto
para que eu vista minhas roupas
e guarde os poemas
para que o mundo retorne
ao seu lugar
e deus volte a se mover
sobre a monótona face das águas




silêncio 79






a máscara que visto
tem a minha cara
meu olhar de bicho
minha fala rara

dela não me livro
nunca me separo
me escondo no escuro
de sua pele clara

somos dois assombros
numa sombra só
soma dividida
pelo mesmo pó

por baixo da pele
nada se disfarça
ela sou meu ele
que se desmascara




silêncio 80







eu escrevo
porque estou feliz

escrevo quando estou
no inferno

escrevo
porque não sinto
nada

você escolhe
o clima
o ritmo
a estrada





silêncio 81









daqui a duzentos
ou trezentos anos
numa colônia humana marciana
atolada em tédio
um sujeito completamente bêbado
publicará minhas obras completas

até lá
vão todos
à merda





silêncio 82







nada mais barulhento
que a burrice

a alegria
não é barulhenta

a alegria é luminosa

e a luz
até onde o escuro saiba
é feita de silêncio




silêncio 83






eu quero essa luz
cinzazulada
que a segunda-feira
de manhã me trouxe
e que trouxe de memória
a prateada morte
de um cardume
que ajudei a arrastar
numa praia
e que agora de repente
se parece com a chuva lágrima
que a moça que passou por mim
atrapalhada e pálida
derramou




silêncio 84







é tudo dela
e ela dá
a quem quiser

prerrogativa de deusa

maná que mina
entre mil lábios
na certeza plurilíngüe
de entretecer
de traduzir

como a teia
revela a trama
da fome fêmea
da gana imensa
de con
sumir




silêncio 85








eu só quero um copo de vinho
baco dionísio gertrude stein
o fauno de brecheret
que alberto cravou no meu peito
numa certeira manhã de sampa
eu só quero um copo um cálice
de vinho tinto suave
frida maiakovski buarque
os deuses da sobriedade intacta
porque loucos de nascença

quando todas as pétalas
dos jardins suspensos
de magritte e de duchamp
desabarem à beira do caminho
eu pedirei humildemente
apenas um copo ou meio
de vinho




silêncio 86

18 comentários:

Nadja disse...

Muito bons os poemas daqui!


Li todos!



:D

Lorraine disse...

O que os girassóis representam pra você?
Não sei se notei pelo acaso, ou se realmente os girassóis são pra você, o que as rosas são para outros...
Percebi, também, o nome “Vincent” – um dos títulos -... Então, lembrei de Van Gogh e “Os girassóis”...
Algumas poesias eram deprimentes, outras nem tanto...
Então, me pergunto, se quando escrevera as melhores, você estava deprimido...
Bem, imagino que sim... ou não estariam tão boas.
Fato... as melhores obras são nas piores horas da vida... ridículo, não?
Contudo, fico na duvida... se desejo que continue na sua melancolia e prossiga fazendo boas poesias... ou fique feliz... Apesar de que as coisas mórbidas atraem quem gosta de poesia...
Respondendo logo de cara: continue meio a meio...
E ignore o fato de eu ter cruzado os dedos...
Hauhuahuauauauahuhauha
Ah, não sei se escreveu por escrever... e se realmente liga para o fato de alguém achar interessantes... então, me pouparei de cercar algumas poesias de elogio, já que, por incrível que pareça, os artistas gostam de ser “falsos modestos” - não sei se é o seu caso.

Bratusfac Mali disse...

quem diz que poemas são bons, melancólicos ou girassóicos não entendeu nada. A frase clássica é "isso é poesia aos meus ouvidos" e não "isso é boa poesia aos meus ouvidos" e nem mesmo "isso era poesia aos meus ouvidos". Aqui se escreve literatura. That's it.

Adrianna Coelho disse...


sou súbito
o que a sombra é

se me desfazem verbos
eis a luz

sigo só - e cego
mais que um: sou uns
oi, carlos

destquei esse poema, mas gostei da sua expressão poética como um todo.

voltarei!

um abraço

Adrianna Coelho disse...


voltei!

é realmente um prazer ler vc... hoje destaquei um outro trecho:

>goles coagulados de gula

gosto daqui!

Juh disse...

Se sou finjo,
Se-lo-ei ao infinito.

Saudades :)

Elias Balthazar disse...

As direções de suas palavras percorrem sentidos peculiares

Lendo e gostando

Anônimo disse...

Ne me laisse pas tomber, Ne me laisse pas tomber

Ne me laisse pas tomber, Ne me laisse pas tomber



Personne ne m'a jamais aimée comme elle ne

Oooo elle .. oui, elle ne



Et si quelqu'un m'a aimé comme si elle me le faire

Oui, elle ne me Oui, elle ne



Ne me laisse pas tomber, Ne me laisse pas tomber

Ne me laisse pas tomber, Ne me laisse pas tomber


"il a obtenu"

Deivis Duran disse...

Ao deus embrigado - que sublimemente interpreta a existência, tendo como bola de cristal o aleph de borges - três poemas em sacrifício:

por estreleternidades
fui torturado
para não falar
para revoluir
tive que matar
num estúpido estampido
acender silêncio
pronto a me ouvir
também sentir não ter nada
a dizer

***

lenda dos calendários
há templos
já faz
muitos templários

***

significar
na totalidade do quase
em verdade desdigo
na realidade é tudo alusão
nada fica pra vingar
o sangnificado

audiencia da tv disse...

ola parabens pelo blog ta show muito bom passei a ser seu seguidor se quiser seguir o meu agradeço
tenha um bom dia
abraços e sucessoss
http://audienciadatvrealtimes.blogspot.com/

João Ludugero disse...

ADOREI TUDO AQUI. VOLTAREI, COM TODA CERTEZA. Por gentileza, se puder, me "persiga".
Hiper abraço,
João.
www.ludugero.blogspot.com

Vanessa disse...

demorou mas consegui ler todos,,,;;...são muitos interessante ;;..bjos
:D

Anônimo disse...

meu menino do balaio esse teu blog é a minha fonte alegria e prazer...

muita saudade! :)

vida disse...

te amo, papai.

vida boaventura moreira

Jorge Ramiro disse...

Eu gosto muito da poesia. Toda quinta-feira nos reunimos com um grupo para fazer uma leitura de poesia em ums restaurantes em santana.

Anônimo disse...

Intensa e elegante a sua poesia, Carlos...



Flávio Caamaña

Cristina Grott disse...

VOLTA PRO BLOG!!!

Cisne Negro disse...

é bom depois de anos, reler seus poemas.